quinta-feira, 26 de junho de 2008

Orgulho Ferido - Parte II

Orgulho Ferido - Parte II
1598 Era dos Homens , 80º Dia do Verão
Sellênthia, Cidade do Falcão – Sellen

Auran Fanir e Karlaya dos Ermos Brancos tentavam se proteger como podiam em meio àquele caos. A chuva de flechas ia, aos poucos, encharcando a praça com o sangue dos citadinos. Agachados ainda no palanque, o casal viu uma flecha se enterrar brutalmente no peito de um jovem nobre, fazendo-o contorcer-se de dor e terror.

“- Anderas, olhai por nós!” - gritavam alguns, enquanto mais e mais projéteis élficos espalhavam a morte.

- São elfos! Porque os elfos? – gritou uma voz desconhecida.

Auran também se perguntava. Pelo que sabia sobres povos estrangeiros, os elfos eram amigos, ou ao menos não eram inimigos. Mesmo os reclusos elfos de Nen Syrenir, que diziam ser selvagens, não mantinham relações ruins com as nações do Império Relloriano. Teria o duque alguma ligação com o ataque? As respostas ficariam para depois. Porque pela primeira vez em décadas, o povo da Cidade do Falcão sentia o cheiro do sangue de seus compatriotas e não de um inimigo qualquer.

Tentando não entrar em pânico, Auran puxava Karlaya pelo braço, à procura de um local seguro. Naquele momento o mais ínfimo beco lhes serviria de abrigo, mas tudo o que conseguiu visualizar foi o fogo, tanto nas moradas antigas do largo, como nas nas torres do cais. Apenas um local parecia a salvo, o prédio da guarda, onde tantos outros nobres estavam sendo acolhidos. Seguiram para lá, enfrentando uma leva de pessoas desesperadas, enquanto os elfos davam rasantes com suas águias velozes.

Com dificuldade, após vencer a multidão desesperada, o casal havia se aproximado finalmente do prédio. Muitos guardas retaliavam cruelmente qualquer um que tentasse invadir o lugar. Ainda assim aquela quantia de pessoas estava muito além da capacidade dos guardas, portanto os portões foram fechados antes mesmo que Auran pudesse se identificar.

E foi aí que vieram os primeiros tremores da noite, seguidos de explosões furiosas.

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O odor de sangue humano preenchia as narinas reptilianas do bando, fazendo-os salivar. Embora aquela chacina tenha acontecido à noite, Oldur sentira aquele cheiro durante todo o dia. Era o cheiro da morte. E à medida que o véu da noite caia, os presos pareciam ainda mais agitados, enquanto o medo aflorava no olhar de alguns guardas.

Quando o ataque élfico começou, muito pouco dos carcereiros permaneceram naqueles corredores. Um dos guardas inclusive gritava alertando sobre a fuga dos homens-lagarto, enquanto a cela destes se abria misteriosamente. Outra cela também foi aberta de súbito, dela saíram dois homens, um caolho com ar ameaçador, seguido de um rapaz com uma tatuagem estranha nas costas. O primeiro era conhecido apenas como “Caolho” - o “assassino de reis”-, enquanto o segundo era Adiel De’Clayter, o “assassino de prostitutas”.

À medida que boa parte da nobreza estava entrando no prédio da guarda, no andar de cima a escória do reino se livrava das jaulas. Uma falsa rebelião fora arranjada, e tanto Oldur quanto Adiel sabiam disso, porque não havia um guarda sequer no caminho, ninguém resistiria. Seguiam para as escadas que levavam ao subterrâneo, primeiro os temidos homens-lagarto, depois Adiel e seu companheiro de cela. Quando finalmente a fuga parecia garantida, uma explosão abalou as estruturas do prédio, roubando o chão sob os pés dos fugitivos.

Aquele estrondo foi um marco de terror, a primeira de tantas explosões que fizeram daquela noite sellentina uma das mais amargas de sua história. A cidade não estava somente sob ataque élfico, mas também sofria com um cerco poderoso, cujos projéteis incendiários começavam espalhar destruição.

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Phalanx pensava estar passando por alguma provação de Trydan, o Deus Trovão. Primeiro ouvira um estrondo aterrador, depois um silêncio sepulcral. Por alguns instantes pareceu estar entre nuvens, vendo o céu profundo à frente, repleto de estrelas que se moviam velozes. Um destes pontos luminosos vinha em sua direção, com um zunido característico. Então ele se lembrou das flechas, das águias gigantes... Dos elfos! Virou-se a tempo de evitar o projétil, a flecha se enterrou no chão com força suficiente para esmagar um crânio.

O sacerdote pôs-se de pé e dando-se conta do que acontecera, estava cercado de corpos e detritos. Momentos antes, procurava um abrigo contra a chuva de flechas, mas um edifício próximo explodiu subitamente, atirando-o para o outro lado da rua. Por sorte um amontoado de feno o livrara do pior, mas seu peito ainda retumbava com o impacto.

Perto dali, outros sobreviventes se levantavam, dentre eles um bando de homens-lagarto. Ao notar a presença das criaturas, Phalanx se recordara rapidamente de sua missão, tinha na memória a nítida lembrança da destruição no pântano, o fim que levou a aldeia daquelas criaturas. Imediatamente se apressou em abordá-las, murmurando para si: “Akiri’zesh”.

As criaturas também pareciam atordoadas com a explosão, muito embora suas escamas os tenham protegido de qualquer ferimento superficial. O maior deles, naturalmente o mais forte, tinha a crista maior e olhos amarelados. Ele olhava curiosamente para um corpo no chão, cuja costa estava tatuada com uma pedra em forma de crânio. Phalanx se aproximou do homem-lagarto e logo viu a tatuagem na costa do garoto.

- Você é Oldur Talt’Mec? – Perguntou.

Oldur o encarou, desconfiado. Porque após meses de cárcere, podia sentir o cheiro da liberdade novamente e não sabia se podia confiar em qualquer humano.

- O que quer humano? Como sabe o meu nome?

- Akiri’zesh me enviou. Os trasgos traíram teu povo e destruíram a aldeia no pântano. Eu vi toda a destruição de perto. Tenho uma mensagem para você e outra para o rei destas terras.

- Onde está o Xamã? – Oldur exibia as presas e fulminava o sacerdote com um olhar de fúria.

- Morto. A praga o levou... Mas pediu que lhe avisasse algo sobre seu povo. As crianças e fêmeas fugiram, e seguiram para uma tal “Pedra do Crânio”...a descrição é igual a essa nas costas deste prisioneiro.

Adiel estava tonto e ouvira a conversa entre Oldur e Phalanx como um sonho distante. Devia estar com uma costela quebrada, porque sentia uma dor lacerante, como se uma grande e afiada adaga bailasse em seu pulmão. Enquanto levantava, praguejou tanto, que faria a fala de um demônio parecer uma canção de ninar. O jovem levantou e procurou uma rota de fuga, pois finalmente estava livre. Mas antes que o fizesse, foi segurado por Oldur.

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Quando recuperou o fôlego, deus graças a Anderas por estar vivo. Ao seu lado estava Karlaya, coberta de pó e aparentemente desacordada. O rapaz fez um esforço para se levantar e ficou horrorizado com a quantidade de mortos na praça. Viu um elfo andando entre eles, trazia uma cimitarra élfica na cintura, um manto de pele de urso e era seguido por um felino feroz.

- É nossa chance Auran! – ouviu a voz trêmula, Karlaya. Ela se levantou procurando por algo na praça, até perceber que o duque preparava-se para deixar o local. Auran se assustou com a reação súbita da maga. Sem dar a devida atenção aos ferimentos, começaram a se dirigir na direção do palanque. Dravenic, por sua vez, estava cercado por uma guarda pessoal e não parecia tão alarmado enquanto era escoltado até sua carruagem.

Seguiram então na direção do duque:

- Dravenic! - Gritou Karlaya – Você nos deve algumas explicações. Karlaya estava suja e ferida, mas sua postura e entonação de voz eram firmes.

- Quem é você para falar com um nobre neste tom?

- Ela se chama Karlaya, mas caso o nome dela não lhe tenha valia, saiba que ela fala por mim também. Sou Auran Fanir.

As palavras saíram da boca do rapaz emotivamente, pois ele sabia das conseqüências ao comprar uma briga com o duque.

- Feliz com esta maravilha da noite? Saiu exatamente como planejado? – ironizou a mulher dos ermos.

Os olhos do duque lampejaram num ódio contido. Era tudo que ele não precisava naquele momento, pois outro acontecimento requeria sua atenção.

- E do que me acusam? – Retrucou o nobre, levando a mão ao punho da lâmina.

- De espalhar a praga – devolveu Karlaya.

Dravenic sorriu.

- É um momento propício para me acusar de qualquer coisa, temos uma guerra iminente...

- Não distorça os fatos! – interrompeu Auran.

- Tola insistência! Se insistirem, lavarei minha honra com sangue. – as palavras do duque eram ao mesmo tempo curiosas e irônicas. Ele ergueu a lâmina na direção do casal. Todos os guardas repetiram o gesto do nobre.

Auran teria falado algo, mas um lampejo de luz se concentrou ao redor das mãos da maga, que pronunciou palavras tão antigas quanto o mundo.

Uma grande esfera de chamas brancas foi atirada na direção do grupo, seguida de uma explosão tão fria quanto o cume de uma montanha. A magia de gelo levou metade dos guardas ao chão e quando a nuvem gélida evaporou, Dravenic estava abaixado, envolto pela capa.

- Os Arcanos Imperiais estão acima dos títulos de nobreza. Exijo explicações para suas palavras naquela biblioteca, na noite do baile da vitória.

Auran olhava um tanto perplexo com o poder que até então desconhecia em Karlaya. Dravenic, por sua vez, estava de pé novamente e sua lâmina brilhava num tom púrpuro.

- Garota, não é saudável espionar nobres. Mas já que o fez, sinto decepcioná-la, para acusar-me de algo, terá que provar primeiramente ao rei, depois ao império. Como não há fundamentos no que fala, terei prazer fazer-te prostituta de minha guarda, depois darei tua carne aos porcos e beberei hidromel no seu crânio. Quanto a você Auran Fanir, talvez receba uma segunda chance, pelo parentesco de sangue. És jovem e rico, pode ter a mulher que quiser.

Ao terminar, Dravenic cuspiu e deu as costas seguindo novamente para a carruagem:

- Mantenho a acusação – disse Auran. O duque parou e ficou em silêncio por alguns instantes.

- Você teria sido mais útil como um cavaleiro, rapaz. Que assim seja, lavo minha honra agora – Dravenic empunhou a lâmina, virou-se subitamente e correu na direção do casal. Karlaya começou a pronunciar outro encanto, mas foi surpreendida pelo rugido de uma fera.

Um Jaguar avançou na direção do Duque e prostrou-se no meio do caminho. Em seguida uma voz ecoou na praça já vazia:

- Sou Garra de Jaguar, de Nên Vallanir. A morte se espalha pela vastidão, como uma chama maligna a queimar um pergaminho velho. Mas vocês, homens, se perdem em outra de suas intrigas.

- E o que você quer... elfo? – perguntou o duque.

- Tenho uma mensagem para o rei da terra dos cavaleiros.

- Todos têm. – devolveu Dravenic – Como quiserem – disse virando-se para Auran e Karlaya – teremos um acerto de contas mais tarde, agora tenho assuntos mais importantes a resolver.

Naquela noite todos teriam, em verdade, uma pergunta a fazer para Alastor II. Mas o rei não havia comparecido à reunião, talvez nem soubesse de tudo que acontecera naquela noite. Quanto a Dravenic, sabia dos riscos de atrair a atenção não somente da nobreza, mas também dos elfos. Preferiu não enfrentá-los num confronto direto, entrou em sua carruagem e desapareceu nas ruas sellentinas.

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Uma explosão mágica na praça atraiu a atenção de Phalanx, Oldur e seu bando. Era justamente a oportunidade que Adiel precisava para fugir. O Caolho golpeou o lagarto com uma pedra, enquanto o escorregadio rapaz se desprendeu e correu para o beco mais próximo.

- Peguem-nos – berrou o líder das criaturas, irritado com a distração – se preciso, tragam-nos mortos!

Oldur e os homens-lagarto correram para o véu de sombras dos becos sellentinos. A confusão na praça parecia ter acabado, mas uma catástrofe ainda pior tomava a cidade. O cheiro de fumaça pairava no ar, corpos cobriam o chão como um lençol macabro e gritos de terror chegavam a todo o momento, carregados pela brisa noturna.

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Nota: Orgulho Ferido I e II é um relato pseudo literário da primeira sessão da campanha. Foi praticamente uma introdução, onde apliquei os ganchos que uniriam os personagens na saga por vir. Ela foi jogada, se não me engano, numa madrugada obscuram em Março ou Abril de 2007.

Jogadores:
Danilo, Benone, Fábio, Ernandes, Leonardo e Herik.