sábado, 1 de março de 2008

Orgulho Ferido - Parte I

1598 Era dos Homens , 80º Dia do Verão
Sellênthia, Cidade do Falcão – Sellen

Haviam rumores sobre uma grande guerra, uma peste e até mesmo sobre a saúde mental do rei. A cada noite – fossem nas tavernas ou salões da realeza – falava-se cada vez mais sobre tais assuntos. Quanto a possibilidade de uma batalha, a opinião popular dividia o reino, pois cada vassalo era motivado pela palavra de seu respectivo senhor. Os lordes do sul defendiam uma marcha contra Ankhôr apenas no verão, ou seja, dentro de um ano, mas Dravenic D’eBrist III – duque de Brist – defendia uma investida antes do inverno – não contra os bárbaros – e sim contra Cerants.

Num dos debates mais acalorados, as seguintes palavras foram proferidas:

“Devemos restaurar nossas terras ao norte. Aquela maldição deve se expurgada, enfiada nas entranhas daquelas malditas feiticeiras!” – exaltou-se Gradrick de Iz. Ele era o senhor de vastas terras ao norte, assoladas pela maldição do Águaprata e constantes incursões de tribos bárbaras da Vastidão. Encontrava tantos motivos quanto pudesse para odiar Cerants.

“Mas o rei não quer uma guerra sem o consentimento da imperatriz, portanto devemos nos contentar em marchar para Punho Distante e defender a cidade contra Ankhôr” - retrucou Benesco D’oranor, cujas terras estavam empobrecidas e uma guerra podia lhe trazer recompensas.

“É verdade! As bruxas estão comerciando muito bem com os rhurins e anões ultimamente, não seria interessante declarar uma guerra por assuntos dos dias antigos” – complementou, ironicamente, Dravenic.

As palavras naquele dia não passavam de um esforço em vão. Mesmo com metade da realeza querendo saquear Cerantes e estuprar cada bruxa ali nascida, o rei havia decidido que não haveria guerra, pelo menos não a nordeste, mas sim a noroeste, contra Ankhôr e as terras do Forte da Garganta.

Como era verão, as três luas dhemorianas brilhavam como jóias no céu, enquanto os selentinos se reuniam no Pátio do Dragão, uma praça espaçosa diante do forte da guarda. O rei - já doente - havia convocado os súditos para um pronunciamento de emergência, pois tantos rumores começaram provocar pânico na população. Dizia-se que uma legião de guerreiros tribais marchava, surgiam dos mais remotos locais da Vastidão em direção a Ankhôr.

Mas não era este o maior temor a contagiar os selentinos.

A cada semana um novo boato surgia, com relatos azedos sobre o exército inimigo e principalmente sobre a Doença. Apelidada de “peste pútrida”, o mal parecia matar muitos animais, mas com o passar dos meses alguns camponeses relataram algo sobre carvalhos rijos murchando até parecerem um tomate desidratado.

A multidão aglomerada aguardava o Rei Alastor II. E conforme a tradição, o duque, juntamente com a nobreza local, começasse os ditames. Falavam sobre os assuntos menos importantes, justificavam os impostos e pediam para que todos procurassem as igrejas do Zelo. Só então a comitiva do rei chegaria, e as sete trombetas da família Sellengard soariam, anunciando assim a presença do monarca.

Mas não foi o que aconteceu.

Auran Fanir, o aprendiz arcano, filho de um notório cavaleiro de Punho Distante, aguardava juntamente com outros bem-nascidos numa arquibancada. Chegara acompanhado de uma virtuosa mulher dos Ermos Brancos: Karlaya, protetora e amiga íntima da rainha; Ambos ansiavam apreensivamente pelas palavras que seriam proferidas naquela noite, pois, desde que presenciaram a conversa entre o duque e Benesco D’oranor, existia a suspeita de que algo terrível estivesse sendo tramado formigava seus instintos.

Durante todo o tempo os olhos azuis de Karlaya acompanhavam os movimentos de Dravenic. Auran, por sua vez, tentava juntar as peças de um complexo quebra-cabeça: os rumores, as maquinações do duque que presenciaram anteriormente, e os motivos do pronunciamento real daquela noite.

*****

Qualquer homem de Cerants era odiado pelos selentinos. O sentimento amargo provinha, naturalmente, da antiga maldição sobre o Águaprata, lançada pelas bruxas exiladas da antiga Reveran. Phalanx não esperava, ao carregar o estandarte de Trydan – um deus antigo – ser acolhido como amigo dentro das muralhas da cidade do falcão. Principalmente quando os rumores falavam sobre uma nova maldição, que talvez também fosse obra das mesmas bruxas. Portanto, para se assegurar de que o sacerdote não trazia uma nova desgraça – ou, na pior das hipóteses, era um espião –, ainda nos portões Phalanx fora confrontado com a Gema da Verdade, uma jóia criada pelos Arcanos Imperiais para garantir que forasteiros indesejados não adentrassem na cidade.

E embora o encanto confirmasse suas palavras: “Trago uma urgente mensagem para teu rei!” Muitos zombaram ou cuspiram em sua direção.

Uma vez deixado em paz e antes que pudesse descansar da longa jornada, Phalanx ficara sabendo sobre o pronunciamento real. Acabou se misturando a uma leva de pessoas que seguia para o local, mesmo porque, o sacerdote nunca estivera nas terras de Sellêntia, onde diziam existir homens cruéis, ladrões oportunos e lordes mesquinhos que governavam com a espada. Surpreendeu-se, em verdade, pois desde que adentrara nas terras do sul, deparara-se com um povo não muito diferente do seu: Dezenas de fazendas, onde se trabalhava duro para alimentar os filhos e enfrentar um inverno rígido. A diferençava estava na religião e na realeza, enriquecida com indulgências, impostos e trabalho escravo.

Assim sendo, o sacerdote não deixou de se afeiçoar com os rostos curiosos quando chegou no Largo do Dragão, onde uma multidão aguardava, ansiosa, para que seu rei lhes dissessem que não havia o que temer.

E ali esperou.

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A Mata dos Galhos Tristonhos é uma floresta antiga e temida por qualquer viajante que atravessa a Vastidão. Diziam as lendas que ali vagava espíritos antigos, guardiões de uma grande fonte de magia que nem mesmo os elfos puderam manipular. É também uma floresta selvagem, encharcada por um pântano medonho, o antigo lar dos Homens-Largarto.

Ali viviam em liberdade, algo até então roubado de Oldur Talt Mec, um príncipe guerreiro daquela raça. Ele e outros de seu povo estavam presos numa fétida masmorra onde até mesmo os ratos se recusavam viver, clausura de assassinos, monstruosidades, doentes e prisioneiros de guerra. Tudo fedia a fezes e apodrecimento, a comida não passava de sobras e a água parecia azeda. De lá, tudo o que o homem-lagarto podia ver era a passagem das luas por uma pequena janela, nas incontáveis noites desde que caíra em cativeiro.

E naquela noite o lagarto observava mais humanos do que podia contar, aglomerados numa grande praça. Havia muitas luzes e guerreiros vestido de bronze ou aço, ele podia ver uma espécie de plataforma ornada com muitas bandeiras, onde no centro havia um grande trono dourado. Oldur não deixou de lembrar do que o xamã – Akiri’Zesh – lhe contava sobre os macacos: Enquanto o rei dos homens-lagarto construía um trono com os ossos dos inimigos mais valorosos, para homenageá-los, o monarca dos homens usava o fruto de sua cobiça para simbolizar seu poder, num trono de metal brilhante.

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Um vale rochoso cuja maior das pedras lembrava um crânio. O crânio do padre... pela ruína dos dragões, o que diabos é isso? Adiel D’Clayter já estava há quase dois meses na prisão e ainda não sabia como sairia daquele lugar. Se é que sairia. Segundo o que sabia, era o único suspeito pela morte de uma das cortesãs do Salão da Sereia.

- Infernos... – praguejou baixinho enquanto observava seu colega de cela caolho.

- O que disse? – retrucou o homem.

- Nada.

Ao que parecia, o tal crânio ficava nas terras de Ankhôr, nas orla da cordilheira denominada Grande Serpente. O mapa estava agora rascunhado num velho pedaço de pano, observado atentamente pelo colega de cela do jovem rapaz. Naqueles dias a figura não passava de um maltrapilho de barba volumosa, cuja face exibia uma terrível cicatriz sobre a cavidade ocular vazia. Uma trama ainda desconhecida por Adiel fizera com que um mês antes ele acabasse preso naquela cela, juntamente com o caolho.

Enquanto se perguntava o que significavam tantas coincidências, percebera que algo estava para acontecer naquele lugar. Há muito não havia guardas nos corredores, e os poucos que ali passavam falavam em sussurros. Alguns presos haviam sido misteriosamente removidos de suas celas e um burburinho podia ser ouvido vindo da pequena janela que dava para o exterior da saleta. Desde o raiar daquele dia, o homem caolho exibia um sorriso estranho, parecia contar as horas, esperava por algo.

Mas segundo o que ouvira sobre o companheiro de cárcere, ele teria tentado assassinar o rei há dois anos e posteriormente fora torturado muitas vezes, para que revelasse alguma verdade oculta. Entretanto, de alguma forma o homem tivera a vida poupada. E naquela noite, um brilho estranho emanava de seu único olho enquanto ele analisava o mapa, uma cópia da tatuagem misteriosa na costa de Adiel.

Tantos pensamento e dúvidas irritaram o rapaz, ele desistiu de procurar respostas dentro da própria cabeça e pôs-se a escutar a barulheira que vinha de fora.

Mas não haveria muito a se ouvir.

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Dravenic sorriu ao notar a quantidade mais que prevista de pessoas no Largo do Dragão. Era a oportunidade que tanto esperava para fomentar seu maior interesse: a guerra. Vestido como um rei, trajava um longo manto de seda azul marinho, ilustrado com seis estrelas e o falcão selentino bordado em fios prateados. Na cintura carregava a famosa espada da família Brist, herança de uma linhagem tão antiga quanto a história do reino.

Jogou sutilmente o fino tecido de lado e tocou o punho lâmina, o gesto fez com que aos poucos a multidão silenciasse. Em seguida seis trombetas soaram como se buscassem até mesmo o ouvido dos mortos, um jovem arauto anunciou o duque, citando as sete últimas gerações que o antecederam e seus feitos em guerra, para só então o nobre iniciar seu discurso:

- Filhos de Anderas, esta noite é de suma importância para cada feudo selentino, para cada espada carregada por nossos cavaleiros e para cada alma nascida na terra do falcão. É com igual reverência que saúdo os compatriotas aqui presentes!

Além da voz do duque, não se ouvia nada naquele momento, exceto o assobiar de uma brisa fina recém chegada do mar que agitou as luzes desprotegidas das tochas espalhadas. O silêncio, porém, devia-se a certo receio, pois cada selentino temia aquele homem, sabiam de sua ambição como conquistador terrível ausência de misericórdia.

- Há bem pouco tempo – continuava o duque – ouvi dizer em minhas terras que uma praga se espalha no norte... uma doença capaz de afetar animais e plantas! Ouço dizer também que meu ao meu nome atribuem a alcunha de “conquistador cruel”, vejam só! Que almejo uma guerra contra as pacíficas bruxas do norte! – As últimas palavras vieram carregadas de ironia – Respondam me, pois, meus caros anderanos, que tipo de magia seus avós mais temiam? Quem pratica feitiços obcuros barganhando com demônios? A resposta, caros selentinos, creio que não preciso vos dizer! – Dravenic parecia encarar cada um ali presente. Em uivos espalhados, muitos começaram a concordar com a afirmativa do duque e logo toda a multidão estava tentando se fazer ouvir.

Novamente as trombetas soaram e o povo silenciou. Mas desta vez, quando Dravenic abriu a boca e ensaiou um gesto, uma flecha se enterrou profundamente no peito do arauto, que estava um pouco atrás. O jovem escancarou a boca e arregalou os olhos, horrorizado, depois morreu sem entender o que acontecia. Todos olharam para o céu e vislumbraram pequenos pontos luminosos circundando Sellen tal abutres sobre a carniça. Perceberam tardiamente que aquela era a primeira flecha de uma tormenta chamejante.

O ataque começou justamente quando uma densa nuvem negra encobriu as luas, – era verão – mas naquela noite as sombras conspiravam. A chuva de flechas trouxe horror, e a multidão ali reunida foi tomada por um desespero súbito. Muitos morreram enquanto procuravam abrigo, eram alvos fáceis para os atiradores, e estes não hesitaram em trespassar tantos quanto puderam com seus projéteis incendiários. A cidade dos cavaleiros colecionava muitos inimigos – fossem eles criaturas da Vastidão ou piratas do Grande Argoran. Contudo, nenhum deles usava arcos tão bem e com tamanha crueldade, tão poucos dominavam os segredos de domar as águias gigantes.

Aqueles atiradores só podiam ser elfos.