sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Prólogo - Oldur Tal’t Mec

1598 Era dos Homens , 15º Dia do Verão
Ravina do Corpo sem Cabeça – Vastidão


A patrulha se constituía de doze cavaleiros. Eram homens belos e fortes, trajando malhas, peitorais e capas dum vermelho vivo. Os tecidos exibiam o falcão heráldico selentino, uma figura mítica, cujas garras carregam uma longa espada. Naquele dia eles patrulhavam as terras ao norte do Forte do Trovão, um vale apodrecido devido as águas venenosas do Águaprata. Como era uma região fronteiriça, os cavaleiros selentinos viviam tendo escaramuças com criaturas da Vastidão. E estranhamente elas estavam aparecendo com mais freqüência. Bandos de trasgos, advindos do leste, atacavam qualquer propriedade em seu caminho a procura de comida. Matavam não só o gado, como também seus donos. Haviam histórias estranhas sobre uma doença terrível estar atacando os animais em algum ponto da Vastidão e muitas tribos – fugindo da fome ou temendo tal mal – rumavam para o oeste, adentrando algumas vezes em Sellênthia ou em Ankhôr.

Um destes bandos havia saído da floresta e seguia obstinadamente para o este. Eram homens-lagarto. Ao todo doze guerreiros, vorazes, liderados por aquele que consideravam o mais forte dentre eles: “O Olho Amarelo do Pântano”. E Levavam consigo um fardo difícil de carregar. Deveriam cruzar a vastidão sem caçar seus inimigos e pisar em solo humano sem derramamento de sangue. Porque os dias ruins haviam chegado. E até mesmo nas entranhas da grande floresta, a Mata dos Galhos Tristonhos – repouso de espíritos ancestrais – havia morte.

Os homens-lagarto nunca formaram um povo grande, não o suficiente para serem considerados uma nação – porém eram numerosos – o suficiente para serem temidos como qualquer outra tribo bárbara da Vastidão. Conheciam muito bem aquela floresta, jamais foram afetados por qualquer maldição das bruxas do norte e ganharam a lealdade dos trasgos errantes. Habitavam um pântano misterioso no interior da floresta, uma terra que para muitos povos é considerada indigna e maldita, mas para eles, era o que chamavam de lar. Caçavam rotineiramente, faziam armadilhas e pescavam em inúmeros córregos, portanto foram os primeiros a perceber as mudanças que estavam por vir.

Os dias da primavera ainda estavam pela metade quando a caça começou a desaparecer, assim como os peixes. A orla da floresta, ao norte, estava fenecendo misteriosamente. Logo o Grande Rei do Trono de Ossos – aconselhado por seu xamã Akiri’Zesh – convocou os anciões da tribo. Naquela noite um prisioneiro foi morto e seu sangue usado para previsões sobre o futuro. O xamã arrancou as vísceras do morto e as atirou sobre brasa, observou a forte fumaça branca que subia e sentiu o cheiro da carne tostando, sabia que o odor despertaria os espíritos antepassados. Eles vieram, disseram o que estaria por vir.

E que haveria uma praga.

As garras rasgaram a barriga do cavaleiro como se fosse um tecido podre. As entranhas do homem foram puxadas para fora enquanto ele berrava alguma coisa ininteligível. Em seguida vomitou parte do almoço e morreu. Quatro dos homens-lagartos também estavam mortos, com os crânios rechaçados pelas lâminas do inimigo. Perto dali, no alto de um rochedo um abutre observava a luta.

- Formar círculo! – gritou um dos homens cuja beleza jovial fora pertubada por um ferimento no rosto. Um rasgo proporcionado por garras.

Após a ordem os guerreiros recuaram até ficarem de costa uns para os outros. Estavam atordoados com a velocidade com que perderam mais da metade do grupo. Os homens-lagarto começaram a cercá-los, silvavam ameaças e um deles acabou atacando, movido pela fúria. Foi contido pela barreira de escudos e acabou estripado pelo defensores. Os lagartos ameaçaram um ataque total, mas foram contidos por um brado feroz vindo daquele que parecia ser o líder deles. Tinha os olhos amarelos. E se chamava Oldur.

Por algum tempo os dois grupos permaneceram imóveis, numa avaliação recíproca. Apenas cinco dos soldados estavam vivos e estes se negavam morrer facilmente. Uma vez fora dos cavalos, os selentinos usavam de técnica e estratégia para vencer uma batalha, ou ao menos sobreviver a ela. Contudo os homens-lagartos cercavam o grupo e pareciam dispostos a testar a total eficiência daquela patrulha.

Existia uma trégua entre humanos e aquele povo da floresta. Ninguém ergueria uma arma contra o outro a menos que para defender a honra. Mas naquela tarde os cavalarianos passaram por Greor, uma pequena aldeia a nordeste do Forte do Trovão. Geralmente eles reabasteciam seus mantimentos na pequena aldeia, para só então seguirem para o leste. Contudo quando chegaram ao local apenas encontraram morte. Vacas, ovelhas e porcos mortos, além de corpos humanos dilacerados e fogo nas cabanas. Concordaram em varrer alguns quilômetros na esperança de encontrar os autores da matança, e foi aí que se depararam com o bando de homens-lagarto escarnecendo um boi.

Agora estes mesmos cavaleiros estavam cercados, tentando sobreviver à ferocidade daqueles guerreiros bestiais. Estes últimos por sua vez só não atacaram porque seu líder ordenou que não o fizessem. Havia algo errado e Oldur sabia disso. Embora humanos e homens-lagarto não fossem amigos, havia uma trégua, o que significava livre travessia naquelas terras. Porém eles foram atacados enquanto se alimentavam. É verdade que Oldur ordenou a morte do boi, mas não sabia que o animal poderia ter um dono vivo. Afinal alguém havia atacado a aldeia e aquele animal teria um fim semelhante nas garras de outra tribo da Vastidão. O líder guerreiro sabia que não deveria matar aqueles cavaleiros e sim pedir que os levassem ao rei deles, o rei de Sellênthia. Porém se deixasse livre aqueles homens, jamais conseguiria chegar até Sellen. Sem dúvida seria caçado em todo reino e não cumpriria sua missão.

- Em paz estamos – disse Oldur.

- Que mil demônios pisoteiem tua alma! – retrucou o cavalariano de rosto ferido.

- Com o rei do homens precisamos falar!- insistiu o lagarto.

- Não zombe de nós! Se quiser uma peleja honrada, lute! - O olhos do cavaleiro ardiam de ódio – Se vocês chacinaram uma pobre aldeia, o que não fariam com o rei?

- Escute – Oldur sibilou – falaram os espíritos ancestrais sobre um mal terrível, uma praga! – ao dizer o lagarto apertou um dente que trazia no pescoço – e a aquela aldeia assim já estava quando chegamos. A trégua ainda respeitamos com os macacos!

O homem encarou os olhos amarelos de Oldur, avaliou seus homens mortos, os feridos e lembrou-se do corpo mutilado da jovem aldeã por quem era apaixonado. Porque o maldito lagarto não acabava logo com aquilo? Suspirou e então concluiu tardiamente que era impossível que tal destruição viesse daquelas criaturas. A vila fora saqueada, no entanto aqueles bárbaros pareciam famintos e desprovido de qualquer espólio, estavam sim, nervosos por terem sua refeição interrompida.

- Com teu rei precisamos falar, humano! – Insistiu Oldur.

- E o que querem com nosso rei?

- Há uma mensagem para ele – Oldur fez sinal para que seus homens recuassem, enquanto ele avançava com os braços abertos – uma mensagem do meu rei, do Trono de Ossos na Grande Floresta – concluiu.

O gesto dos lagartos fez com que os guerreiros baixassem a guarda vagarosamente. O homem com rosto ferido saiu do círculo e foi em direção a Oldur, oferecendo-lhe o cabo da espada:

- Antes que eu me renda, diga-me teu nome.

- Oldur Tal’t Mec. E o seu?

- Vendric.. – o cavaleiro sentiu uma flecha enterrar-se em suas costas, mas fez um esforço para manter-se de pé, viu que o guerreiro lagarto a sua frente cambaleou após ser alvejado também. – Vendric... Fanir, filho de Meldros Fanir.

Mas o lagarto não ouviu, porque já estava desacordado. E em poucos instantes todos naquela ravina – homens e lagartos – só viam escuridão, porque alguém disparara flechas contra eles.

E eram flechas mágicas.

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