segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Prólogo - Auran Fanir

1598 Era dos Homens , 48º Dia do Verão
Capital de Sellênthia – Império Relloriano

1598 Era dos Homens , 48º Dia do Verão
Capital de Sellênthia – Império Relloriano

Boa parte da nobreza estava reunida naquela noite. Eles comeram pães e bolos, cujo trigo havia sido colhido em terras inimigas, beberam vinho das colônias ao sul e dançaram sobre os túmulos dos antigos reis tribais da Vastidão. E, por mais que previssem os dias difíceis a chegar, estes homens não se deixavam levar pelo pessimismo da guerra. Não temiam a barbárie instalada no norte, tão pouco a esquadra de navios ocidentais que – diziam o rumores – estaria zarpando do ocidente para atacar a capital. Na verdade, poucos foram os dias em que um filho da nobreza da “Terra dos Falcões” temera algo.

Porque Sellênthia era espada do Império Relloriano.

E o duque Dravenic de’Brist III, mais que qualquer outro nobre, sabia muito bem disso. Ele havia convocado todos para um baile em homenagem a Jorevon, o príncipe, vencedor da batalha contra a Aliança de Ferro, cuja pilhagem rendera ao reino muito mais que o esperado. Esta batalha, além de garantir um inverno farto para Sellênthia, foi um passo fundamental para firmar o poderio militar do reino nas colônias do Arquipélago das Esmeraldas.

O duque era até então o senhor das terras ao leste, entre a Floresta Uivante e o Lago Ceran, região que outrora pertencera a Reveran, reino das bruxas. Era também o único homem cuja riqueza e poder lhe faziam tão poderoso quanto um rei, embora ele mesmo não ousasse desafiar a coroa de Alastor II. Mas foi o poder e influência do duque – e não do rei – que fizeram com que as mais poderosas famílias de Sellênthia estivessem presentes no encontro. Inclusive Auran Fanir, que representava o pai enquanto este liderava tropas no norte. Embora jovem, o rapaz portava-se à mesa como qualquer outro senhor de terras. Tinha, pois, recebido uma educação refinada exatamente ali mesmo na capital.

Corria entre os nobres certo burburinho sobre Auran. Dizia-se que, embora bem nascido, ele e sua família talvez não merecessem tanta atenção, ainda mais quando apenas um garoto representava a família num evento da realeza. Isso sem mencionar o fato do jovem manusear uma besta de guerra, quando muitos filhos da nobreza dedicavam-se à espada e cavalaria. Mas o rapaz não fazia juízo sobre tais comentários, e compareceu àquela reunião portando-se dignamente. Se fosse diferente, não teria conhecido Karlaya, a mulher dos Ermos Brancos. Era uma mulher como tantas outras das terras geladas, pele alva, cabelos dourados e olhos dum azul profundo.

Estavam ambos sozinhos, separados por uma mesa opulenta, enquanto homens, capitães e cortesãs bailavam. Haviam inclusive trocado olhares, mas somente quando o segundo épico fora anunciado é que Karlaya fez um sinal discreto convidando Auran para a dança. E o fizeram conforme pedia o momento, um jovem rapaz da nobreza em idade de casamento, com uma bela dama que, embora estrangeira, dizia-se bem nascida.

Mas Karlaya não pensava em qualquer convenção amorosa naquele momento, embora tenha achado aquele rapazote atraente. Estranhamente a dama começou conduzi-lo pelo salão, sem sequer encarar seu par nos olhos. Atinha-se a algum acontecimento exterior, o que acabou por provocar um protesto do rapaz:

- Algum problema, senhorita?

- Talvez – Respondeu ainda sem encará-lo – Digamos que estou interessada em acontecimentos nada comuns.

- Algo mais importante que um épico sobre a batalha na Costa da Aliança? – Auran se orgulhava da vitória do príncipe, assim como gostaria que aquela bela dama lhe desse um motivo para se orgulhar no final da noite.

- Talvez – respondeu ela sem perceber o quão ríspida estava sendo com um membro da nobreza local.

E continuaram dançando, até que finalmente Auran fez corpo duro e tomou as rédeas da dança, guiando sua parceira para longe do que provavelmente impunha sua atenção. Karlaya irritou-se, porém não podia colocar tudo a perder naquele momento e não podendo observar o que queria, encarou seu par. Por um instante ela achou que perderia a chance, e então abriu o jogo:

- Se você de fato se preocupa com vosso rei, e com vossas guerras, diga-me quem é aquele nobre que conversa com o duque?

Auran fez um giro completo e começou a conduzir a dama para o outro lado do salão.

- Oranor. Conde Benesco d’ Oranor – respondeu percebendo certa ansiedade na respiração da dama - E no momento eles estão entrando na biblioteca.

- Então, pela piedade de Anderas¹, me leve para lá!

Seguiram atravessando o salão. Até que finalmente estavam diante de um portal cujas laterais traziam duas bandeiras vermelhas ornadas com a insígnia real, o falcão. Subitamente ela se desprendeu de Auran, mas este lhe segurou a mão e ela não teve outra opção senão puxá-lo para a penumbra das intrigas reais.

E embora o duque e o conde tivessem acabado de adentrar a biblioteca, não havia sinal deles ali. Somente poltronas e estantes repletas de tomos com a história real. Karlaya encostou o indicador nos lábios, pedindo que seu companheiro ficasse em silêncio. Em seguida, após breve observação, empurrou um livro numa das prateleiras e estantes. Auran começava a perceber onde estava se metendo e adentrou na passagem secreta tentando prever o que se passava.

Estavam agora numa saleta escura e apertada o suficiente para que percebessem os odores um do outro. Logo ouviram:

- E a praga? – perguntou uma voz.

- Está se alastrando pela Vastidão. – respondeu uma voz idêntica a de Dravenic.

- Em breve chegará às minhas terras – disse o homem, cuja voz agora sabiam ser de Benesco d’Oranor.

- Eu sei. Era o previsto, não?

Fez-se uma pausa. Auran estava sério, pois não queria acreditar no que ouvia. De certa forma até então respeitara o duque como o braço direito do rei, conquistador de terras e ouro.

- E o rei? – perguntou o conde

- Não sabe.

- Em nome Senhor da Prosperidade, que ele nos ajude! Ainda temo pelo que possa acontecer.

- Não há porque se preocupar. Todos ganharemos com isso, eu, você e quem estiver conosco.

- Assim espero – disse o conde com certo temor na voz – Eu mandei que sabotassem as caravanas para Nen’Vallanir.

- Sim, como combinado. Se os elfos retaliarem, temos como quebrar o Acordo das Três Lâminas. Sem os elfos e anões no caminho, podemos atacar as bruxas no norte. Eles não ousarão entrar numa guerra contra o império...

Uma salva de palmas no salão interrompeu o diálogo.

- O príncipe deve estar dançando – previra o duque.

Dravenic e Oranor seguiram para a saleta secreta onde dois ouvintes lhes espionavam e que também era a saída daquela câmara oculta. Tiveram a impressão de sentir o perfume de uma dama no ar, mas preferiram não comentar. Seguiram para a multidão que se aglomerava em torno do príncipe e a futura condessa Soranizz, afinal era uma comemoração de vitória e o verão fora proveitoso. Mas não muito longe dali, na sala de memórias, Auran Fanir e Karlaya dos Ermos Brancos sabiam, o outono que chegava valeria por dois invernos.
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1 - Deus da Prosperidade