quinta-feira, 5 de julho de 2007

Prólogo - Adiel De'Clayter



1598 Era dos Homens, 43º dia do Verão
Capital de Selênthia - Império Relloriano


O salão Calda da Sereia era um local barulhento, cujas noites mais movimentadas reuniam cerca de duzentas pessoas. Todo tipo de gente freqüentava o local, de rufiões a pescadores, passando por marinheiros, cortesãs, mercenários e até mesmo membros da nobreza. Devido à quantidade de pessoas e os negócios suspeitos que lá dentro se realizavam, uma guarda particular certificava de que ninguém entraria armado no estabelecimento. Qualquer tipo de atitude violenta era contida pelos guardas, que logo atiravam o transgressor nas águas do cais. Grande parte dos negócios ali praticados era gerenciada por uma "sociedade secreta" e sabia-se apenas que seus membros eram senhores mercantes. Além das bebidas, ali se podia encontrar prostitutas, drogas, venenos e espólios de pirataria.

E, claro, jogos de carta.

Um amigo próximo saberia, aquele sorriso de Adiel De’Clayter não era verdadeiro. O rapaz fitava suas cartas tentando não se desesperar, estava certo de que não ganharia aquele jogo. À sua frente, encarando-o como uma águia faminta, estava seu mais novo inimigo - Porth Polagon - um ex-marinheiro que do dia para noite enriquecera no jogo. Fazia algum tempo que os dois estavam entretidos, haviam bebido uma razoável quantidade cerveja e a embriaguez há muito levara o que restava do bom senso de Adiel. Já naqueles dias comentava-se nos becos da capital algo sobre a desgraça da família De’Clayter, cuja riqueza outrora opulenta estava agora nas mãos agiotas. Porth por sua vez, ignorava tudo isso, só cumpria o que haviam lhe dito em segredo: “ele está na orla de um lamaçal, apenas empurre-o”. Certo de que seria bem pago pelo serviço, o marinheiro investiu uma pequena quantia numa rodada de cartas, sabendo que o rapaz não perderia a oportunidade. Contratou mais dois jogadores, algumas prostitutas e armou a situação.

O jogo prosseguiu madrugada adentro, até que finalmente Porth resolveu se pronunciar:

- Você já me deve o suficiente para morrer três vezes!

- Deve existir alguma maneira de resolvermos isso! - Retrucou Adiel enquanto tentava perceber alguém familiar em meio aos transeuntes do salão.

- Mas é claro que há! Vou vendê-lo como escravo para os caravaneiros da vastidão! – disse Porth exibindo uma gengiva escura de dentes apodrecidos num sorriso que logo se transformou em tosse. O marinheiro também parecia procurar alguém dentre os presentes no Calda da Sereia. Olhou em volta fingindo contabilizar a dívida de Adiel, até avistar o homem que lhe pedira tal favor. Este por sua vez era um velho em trajes caros, estava acompanhado de duas cortesãs e parecia divertir-se. Após sussurrar algo no ouvido de uma das mulheres, sorriu e começou a se dirigir para a mesa de jogatina. As garotas, sem entender, apenas o seguiram.

Adiel não percebeu o velho se aproximar e deu continuidade a seu logro infértil:

- Espere até amanhã, arrumarei a quantia. Mas você terá que confiar em mim...

- Que os demônios o carreguem rapaz! Você não deve a mim, eis ali o homem que cobrará a dívida!

Dois brutamontes se levantaram de mesas próximas e pousaram as mãos no ombro do devedor. Novamente? Pela segunda vez na semana Adiel estava metido em confusão. Na primeira safara-se de pagar cem moedas fugindo pela janela do retrete.

- Você deve a mim – disse o velho que chegava encarando-o amistosamente.

- Você? Mas...

- Sim, eu! E o jogo não acabou. Porth, peça para levarem vinho àquela saleta, continuaremos a diversão lá. Meninas, ah!...meninas...façam com que meu mais novo empregado se sinta bem, afinal a noite ainda está por começar!

Todos se levantaram. Os outros jogadores foram embora oportunamente e Adiel logo percebera de que tudo aquilo se tratava de uma armação. E seguiu escoltado para uma das inúmeras saletas de encontros reservados. No local havia uma mesa grande com um banquete, muitas frutas, bebidas e mariscos.

- Sente-se rapaz! Não vamos nos delongar, afinal.

- Você pegou o cara errado, eu não sou quem você está pensando!

- Não? Ora acalme-se Sr. De’Clayter, não vamos dificultar as coisas. Quero apenas que pague o que me deve. Também sei que não possui sequer uma moeda no bolso, portanto você fará o que eu mandar!

De maneira felina uma das mulheres sentou no colo de Adiel. Ambas aparentavam ter entre 20 e 25 anos e a mais alta delas possuía a pele clara e tatuada com desenhos de fadas. A outra era magra, com cabelos encaracolados e olhos dum verde profundo. Esta última foi quem ofereceu vinho começou a interagir com o rapaz, desconcertando-o aparentemente.

- E...você...quer...o que?

- Quero que leve um recado – O velho fez um sinal para que ela moderasse as provocações.

- O que? – disse como quem recupera o fôlego.

- “O segredo está no Crânio do Padre” eis o recado – encarava Adiel severamente.

- O que é Crânio...do... Padre? Para quem vou...

- Para um prisioneiro. – Interrompeu não se dando ao trabalho de continuar as explicações, o sonífero começava a fazer efeito.

Acordou pela primeira vez com uma forte dor de cabeça e um terrível ardor nas costas. Embora não estivesse totalmente recuperado dos sentidos, pôde perceber que ainda estava ainda na saleta, algemado. No chão estava o corpo de uma das prostitutas, ensangüentado. Um dos membros da guarda real bateu em sua cabeça e tudo virou escuridão novamente. Mais tarde despertara numa cela com um homem de face desprezível lhe observando, tinha uma longa e escura barba, cabelo volumoso e uma cicatriz no rosto que denunciava o porquê da ausência de um dos olhos.

- Qual o recado?

- Espere... Qual o seu nome?

- Qual o recado? – perguntou impaciente.

Adiel repetiu as palavras do velho na taverna. O caolho perdeu-se devaneando e em seguida:

- “O segredo está no Crânio do Padre”... mas o que significa isso?

- Se você não sabe, como vou saber? Eu por acaso fui chicoteado enquanto dormia? Minhas costas ardem!

Adiel estava descabelado e fazia uma careta de dor, sua cabeça ainda rodava.

- Espere...mas é claro! Vire-se!

- Não.

- Vamos rapaz!

- Ei... não vim parar aqui para...

O caolho não o esperou terminar e avançou virando-o à força de barriga para o chão. Com uma adaga rasgou a camisa e contemplou um mapa tatuado nas costas do rapaz. Pela primeira em meses de prisão aquele homem sorrira.

_________________________________________________________